
Finalmente fui assistir ao filme Ensaio Sobre a Cegueria, de Fernando Meirelles. Não li o livro de José Saramgo, sabia da história por cima, e a verdade é que tinha grande expectativa, mas não sabia exatamente o porquê.O elenco, claro, chama a atenção… Principalmente por Julianne Moore. E têm outros nomes, o Gael Garcia Bernal, a Alice Braga, o Mark Rufallo, o Denny Glover…. Muita gente boa.
E todo mundo já falou sobre o filme. Teve gente que não gostou… Ouvi até história de um grupo de cegos que iria se manifestar contra a produção … Como assim?
A verdade é que “Ensaio Sobre a Cegueira” serviu, para mim, como uma grande metáfora… Para os relacionamentos humanos, para a percepção da gente sobre as coisas. Enxergar, no universo do filme, não é lá um grande privilégio. Envolve perceber podridão, sujeira, traição. Enxergar é carregar a herança de conviver com seres humanos errantes, que deixam transparecer seu pior lado, povoado por ganância, racismo e luxúria…
Mas é também na cegueira que se manifesta a compaixão, a amizade, laços de afeto, amor e compreensão.
Uma das cenas do filme me chamou especial atenção. Em quarentena, àqueles atingidos pela estranha epidemia não sabem como anda o mundo lá fora. É quando o personagem de Denny Gloover surge com um fantástico aparelho: o rádio AM. Através das ondas do rádio eles ficam sabendo da propagação da doença, do que está sendo feito para tentar reverter o quadro. É com o rádio que encontram comunicação com o mundo de fora. A cena continua: eles resolvem ouvir música. O rádio possibilita um momento de extrema emoção àqueles que sofrem, que se veem isolados, esquecidos. Ouvem uma canção, refletem sobre suas vidas, isolados pela doença. O rádio canaliza, em misto de alegria e tristeza, o sentimento igual de pessoas tão diferentes.
Claro: já é tarde para comentar o filme, que está em cartaz a algumas semanas. Mas seria impossível não compartilhar com vocês o impacto que senti ao viver, com cada personagem, momentos de cegueira branca, de percepção obscura, e de plena visão do que somos, de nossas falhas e de nossos absurdos.
Para quem ainda não assistiu, apenas um aviso: o filme é forte e tem sim imagens gráficas do pior no ser humano.
Eu adorei.